Lá pelos idos de 1972, um sujeito chamado John Boorman adaptou para o cinema um tal de “Deliverance” de um maluco chamado James Dickey. Provavelmente você nunca ouviu falar no primeiro porque ele deu o azar de lançar seu filme no mesmo ano de Godfather e desconhece o segundo pelas poucas traduções à venda no Brasil. Ambos, entretanto, estão entre os melhores naquilo que fazem.
Com Burt Reynolds e Jon Voight no elenco, Boorman conta em exatos cento e dez minutos a história de quatro camaradas da cidade grande numa viagem de canoa pelo Rio Georgia. O grupo pretendia apenas fugir da rotina para viver uma “aventura controlada” de três dias em meio a natureza intocada da região, mas um episódio insólito logo no início da jornada torna o ambiente recreativo numa seqüência de violência e insanidade perpetrada por nativos incomodados com sua presença.
Rubens Edwald Filho conta que logo na sua estreia nos cinemas brasileiros, em 1973, a censura cortou toda uma longa sequência de sete minutos em que o personagem feito por Ned Beatty era estuprado e humilhado das mais diversas formas por uma dupla de caçadores locais. Hoje em dia a cena não chega a chocar, mas incomoda por representar fatos que poderiam muito bem acontecer em qualquer lugar do mundo ( e acontecem ). A partir daí a descontração desaparece e o que era para ser uma simples fuga de final de semana acaba marcando aqueles homens pelo o resto de suas vidas.
Há quem veja também uma relação de simbiose entre aqueles homens e a natureza que ora enfrentam, ora integram. Vêem os “caipiras” como animais desde o início, fazendo pouco deles, como se não passassem de um detalhe mal desenhado na paisagem. Mas ao mesmo tempo, juntam-se a eles na famosa e divertida cena do duelo de banjos. Essa relação segue instável até o final, culminando na (também famosa) cena em que o xerife (cujo papel é feito pelo próprio James Dickey!) encerra a epopéia num alerta de duplo sentido acompanhado de um olhar que parece machucar de tão ferino.
Finalmente, revendo agora pouco o filme no Netflix, descobri uma curiosidade. Reparem que apesar de a cena com os músicos ser conhecida como “duelo de banjos”, apenas o garoto segura o instrumento, enquanto o personagem de Ned claramente toca um violão. Pesquisando, descobri que Duelling Banjos na verdade é o nome da composição original, datada de 1955. E há mais: durante muito tempo propalou-se uma lenda de que a cena aconteceu naturalmente durante as filmagens, que o garoto era um morador local que sofria de autismo e que o pai teria começado a dançar sponte propria. Aparentemente a história é falsa, conforme apurou o autor do blog, tendo o garoto sido selecionado durante o casting numa escola regional. Ainda sobre o assunto, vale a pena conhecer também a versão rock n´roll da música, feita para o Guitar Hero por Steve Ouimette em 2011. Muito bacana!
Para aficcionados, aqui está o link para baixar o roteiro original, aqui tem um texto interessante sobre as edições originais do romance e aqui uma relação dos sebos brasileiros que tem o livro para vender, a partir de míseros R$5. Em tempos carecedores de bons livros e filmes, esta dupla aqui certamente vale ser revista. Divirtam-se!