Amargo Pesadelo – A Epopéia de Boorman e Dickey


Lá pelos idos de 1972, um sujeito chamado John Boorman adaptou para o cinema um tal de “Deliverance” de um maluco chamado James Dickey. Provavelmente você nunca ouviu falar no primeiro porque ele deu o azar de lançar seu filme no mesmo ano de Godfather e desconhece o segundo pelas poucas traduções à venda no Brasil.  Ambos, entretanto, estão entre os melhores naquilo que fazem.

Com Burt Reynolds e Jon Voight no elenco, Boorman conta em exatos cento e dez minutos a história de quatro camaradas da cidade grande numa viagem de canoa pelo Rio Georgia. O grupo pretendia apenas fugir da rotina para viver uma “aventura controlada” de três dias em meio a natureza intocada da região, mas um episódio insólito logo no início da jornada torna o ambiente recreativo numa seqüência de violência e insanidade perpetrada por nativos incomodados com sua presença.

Rubens Edwald Filho conta que logo na sua estreia nos cinemas brasileiros, em 1973, a censura cortou toda uma longa sequência de sete minutos em que o personagem feito por Ned Beatty era estuprado e humilhado das mais diversas formas por uma dupla de caçadores locais. Hoje em dia a cena não chega a chocar, mas incomoda por representar fatos que poderiam muito bem acontecer em qualquer lugar do mundo ( e acontecem ).  A partir daí a descontração desaparece e o que era para ser uma simples fuga de final de semana acaba marcando aqueles homens pelo o resto de suas vidas.

deliveranceBoorman capta com maestria o clima de tensão do livro, explorando as diferentes personalidades  dos personagens, escancarando seus anseios, medos e fraquezas. Dickey, conhecido nos EUA por retratar o íntimo do povo sulista em sua poesia,  mergulha na alma dos incautos viajantes narrando derrota após derrota dos quatro frente às vicissitudes do caminho, ora pelo impetuosa busca da aventura como sentido da vida, ora pelo reconhecimento de que a vida fora da floresta cobra valores diferentes daqueles que garantem a sobrevivência entre as feras. Em determinado momento, um dos locais chega a indagar Lewis (Reynolds) sobre o motivo pelo qual eles querem descer o rio. Sem pestanejar, Lewis parafraseia George Mallory (um dos primeiros montanhistas a tentar e quase chegar ao cume do Everest, morto em 1924 enquanto tentava) afirmando com dureza: “porque ele está lá”. Antevendo o pior, em sua sabedoria empirista, o matuto assevera: “se entrarem e não conseguirem sair vão desejar que não estivesse”. Filme e livro são sobre isso. Sobre a impermanência, sobre a mudança de paradigma, de pensamento, de atitude. Logo de cara ficamos sabendo que a própria cidade onde o início do rio está localizado em breve não existirá mais. Será totalmente inundada para a construção de uma barragem. E como a cidade, nada permanecerá no seu lugar quando a história acabar.

Há quem veja também uma relação de simbiose entre aqueles homens e a natureza que ora enfrentam, ora integram. Vêem os “caipiras” como animais desde o início, fazendo pouco deles, como se não passassem de um detalhe mal desenhado na paisagem. Mas ao mesmo tempo, juntam-se a eles na famosa e divertida cena do duelo de banjos. Essa relação segue instável até o final, culminando na (também famosa) cena em que o xerife (cujo papel é feito pelo próprio James Dickey!) encerra a epopéia num alerta de duplo sentido acompanhado de um olhar que parece machucar de tão ferino.

Finalmente, revendo agora pouco o filme no Netflix, descobri uma curiosidade. Reparem que apesar de a cena com os músicos ser conhecida como “duelo de banjos”, apenas o garoto segura o instrumento, enquanto o personagem de Ned claramente toca um violão. Pesquisando, descobri que Duelling Banjos na verdade é o nome da composição original, datada de 1955. E há mais: durante muito tempo propalou-se uma lenda de que a cena aconteceu naturalmente durante as filmagens, que o garoto era um morador local que sofria de autismo e que o pai teria começado a dançar sponte propria. Aparentemente a história é falsa, conforme apurou o autor do blog, tendo o garoto sido selecionado durante o casting numa escola regional. Ainda sobre o assunto, vale a pena conhecer também a versão rock n´roll da música, feita para o Guitar Hero por Steve Ouimette em 2011. Muito bacana!

Para aficcionados, aqui está o link para baixar o roteiro original, aqui tem um texto interessante sobre as edições originais do romance e aqui uma relação dos sebos brasileiros que tem o livro para vender, a partir de míseros R$5. Em tempos carecedores de bons livros e filmes, esta dupla aqui certamente vale ser revista. Divirtam-se!

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