Como Vejo o Mundo; por Einstein (e também Russel, Schopenhauer, Buda…)



Numa madrugada dessas bem nebulosas, folheando meu Práticas de Sabedoria, busquei o Google por uns conceitos que minha meditação em cima do texto sacaneava em não avançar. Busca vai, busca vem, caí numa biblioteca pública digital bem no meio do curto verbete “B.Russel  e o pensamento filosófico”, deste tal de Como Vejo o Mundo que inspira o post. Caramba, buscando respostas na meditação, caí num livro de Albert Einstein!

Conexões entre Russel e algumas explorações budistas não são exatamente uma novidade,  já que seus temas se sobrepõem com facilidade. Filósofo, matemático e humanista inveterado, o escritor ficou conhecido por ajudar a popularizar a filosofia ao comentá-la junto a assuntos cotidianos diversos, dentre eles, religião e sociedade. Pacifista, agnóstico e doutrinador, Russel lutou até a morte pela emancipação feminina, direitos sociais, livre-comércio e liberdade de pensamento, tudo isso dissociado da religião. Como Nietzche, porém mais elegantemente, colocava a religião como o centro da angústia da sociedade de sua época, responsável direta por retardar um desenvolvimento mais vigoroso e consistente do homem. Apontava o desenvolvimento e as responsabilidades pessoais como o único caminho possível para o crescimento, visão muito similar a da doutrina sidartista original, como é defendida por alguns, viés doutrinário mais ocidental que abracei já há algum tempo.

Eis que me espanto com uma citação sobre Russel pelo físico mais famoso da história!  Bati os olhos num naco de texto sobre a fraqueza do espírito científico frente uma chamada “religiosidade cósmica” e fiquei maluco. Como ando de olhos cansados para telas frias, no dia seguinte passei numa Saraiva e comprei meu exemplar de bolso de Como Vejo o Mundo por míseros R$15. O resultado é que devorei o livrinho em um só dia.

Fiquei fascinado com  tamanha clareza de raciocínio e exposição diante de temas tão controversos e atuais. Esperava de um físico – ainda que tratemos aqui de alguém do calibre de A.E. –  teorias que separassem religião e ciência, tal qual me ensinaram no colégio, com prolixidade e profundidade algebristas, enfadonhas. Que nada! Dei de nariz na porta com proposições desse naipe:

einstein“(Sobre o que chama de religiosidade cósmica) se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um Ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo _ uma espécie de sentimento exaltado da mesma natureza que os laços do filho com o pai _, um ser com quem também estabelecem relações pessoais, por respeitosas que sejam. Mas o sábio, bem convencido, da lei de causalidade de qualquer acontecimento ,decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo.A moral não lhe suscita problemas com os deuses , mas simplesmente com os homens.Sua religiosidade, consiste em espantar-se , em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza , revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar , diante dela , a não ser seu nada irrisório.Este sentimento desenvolve a regra dominante de sua vida, de sua coragem , na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas.Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos”

Delicioso esse livro do começo ao fim! Einstein, além da clareza solar e da argumentação incisiva, se desnuda numa personalidade apaixonante, divagando sobre temas corriqueiros  numa franqueza que só uma amizade de vinte anos autorizaria. Desculpa-se, por exemplo, ao falar de B. Russel, justificando sua aventura como quem fez a experiência de pensar em domínio alheio, simplesmente porque assim sobrepuja aqueles que “pensam pouco, ou não pensam de modo algum”. E a seguir discorre sobre a dificuldade do pensamento puro em explicar o mundo objetivo (mais ou menos como a verdade relativa em face da absoluta, conceitos budistas). Trata essa visão objetiva de “realismo ingênuo”, empresando conceitos de Russel e Schopenhauer, o que significaria que a ciência ou a física dariam objetividade a algo subjetivo, tornando essa visão comum da realidade algo inteiramente falso.

Tem mais. Einstein prossegue com exemplos dessa “religião cósmica” em profetas antigos, na gênese de seus pensamentos hoje tão deturpados e segmentados. Conta, inclusive, que “em grau infinitamente mais elevado, o Budismo organiza os dados do Cosmos , que os maravilhosos textos de Schopenhauer nos ensinaram a decifrar”. Para ele, os gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram precisamente por essa religiosidade ante o Cosmo. Einstein revela aqui que não vê sentido na dogmática religiosa, nem nesse Deus cristão concebido à imagem do homem. E é mesmo muito fina essa linha que separa essas sociedades espirituais altamente burocratizadas do mundo moderno dos ensinamentos desses “gênios” que o autor invoca.

O físico avança, ainda, por temas atemporais como liberdade (“não sou livre, mas às vezes preso, constrangido, por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções íntimas”), caráter (“aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer”),  pacifismo (“a pior das instituições gregárias se chama exército – eu o odeio”) , política (“dinheiro polui tudo e degrada sem piedade a pessoa humana”) e até psicanálise (“a regra para determinar o valor de um homem é verificar em que grau e com que finalidade este homem se libertou de seu eu”).

Apreciei bastante, também, seu gosto particular pela análise da moral e da sociedade. Ao falar, por exemplo, do Estado diante da causa individual, explicita seu manual procedimental para as situações em que Estado exige do cidadão um ato inadmissível ou para quando a sociedade espera que ele assuma atitudes que sua consciência rejeitaria. Assevera que é simplesmente errado pensar que porque um homem é dependente da sociedade em que vive e executa atos sob uma “imposição irreprimível”, não poderia ser responsabilizado. Penso, como ele, que hoje em dia o comportamento social se pauta em geral nessa premissa. Assim prossegue o gênio, falando sobre temas tão complexos como se discutisse São Paulo e Corinthians. A prosa flui.

E é aí que Einstein desopila o fígado.  Condena esse pensamento com uma veemência assombrosa de tão simples:  “o constrangimento pode até atenuar a responsabilidade, mas não a exime”. O velho Eins, basicamente, acredita que ninguém deve se submeter a este teste de envergadura moral, justificando que instituições, leis e costumes surgem com base em sentimentos inatos de justiça, mas quando passam a não mais fazer o que é melhor para a sociedade, é de responsabilidade do cidadão impor-se. E desfila suas criticas às instituições que lhe eram contemporâneas – e em nada diferem das nossas – sugerindo uma “sociedade para responsabilidade social na ciência”.

Leitura rápida, agradável e interessante para passar o tempo. Quem diria, Einstein pensador, para dummies.

* Baixe textos de Russel, já em domínio público: O Poder Nú (.pdf, 45,23 Kb); Dúvidas Filosóficas (.pdf, 26,50 Kb) e A Filosofia entre a Religião e a Ciência (.pdf, 34,85 Kb).

* Baixe também a versão eletrônica de Como Vejo o Mundo  (pdf, 50Kb) se preferir.

* Conheça um pouco sobre budismo ocidental no blog de Leonardo Ota.

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