Li nessa madruga


Se gostarem, tem mais no link ao final.

Ah, como eu gostaria


Eduardo Sigrist*

Ah, como eu gostaria, nesta noite de sexta-feira, nesta noite de sexta-feira em São Paulo, com todo o povo agitado nas ruas, a juventude agitada, a juventude da qual eu não mais faço parte, felizmente ou infelizmente, porque aos 32, beirando os 33 de Cristo, porque aos 32 não me sinto mais jovem, já não faço o barulho dos jovens, não suporto a falta de sensibilidade dos jovens, mas também não sou um velho casmurro, não tenho a seriedade dos velhos, ah, como eu gostaria, relembrando os céus estrelados do interior, as noites estreladas de pescaria com meu pai e meu irmão, cada lambari de rabo vermelho que fisgávamos, relembrando as chuvas tomadas nas esquinas com os amigos, sem medo de gripe ou ladrão, relembrando as noites de paródia com minha mãe, quando reconstruíamos versos populares de cantores medíocres e inventávamos letras esdrúxulas, com ou sem rimas esdrúxulas, quando eu mal conhecia Chico Buarque e sua construção, quando o único clube da esquina que eu conhecia era o de camaradas que tomávamos chuva nas noites do interior e imaginávamos histórias de vampiro e detetive, e ainda não era O Clube da Esquina aquele magistral agrupamento de vozes e mentes que depois viriam trazer inspirações esdrúxulas a este coração norte-centro-sul-americano, inspirações que sei lá o que inspiravam ou inspiram, uma inspiração-respiração, batimento cardíaco, suspiro, vida e morte, que não é o mesmo tipo de inspiração que vem do Chico, nem é a inspiração spleen do poeta francês, muito menos essa inspiração enevoada que sopra das mãos enevoadas de Nelson Freire quando ele toca, neste momento, os noturnos de Chopin, noturnos tão noturnos e estrelados, noturnos tão ensolarados e chuvosos, que só me fazem pensar em como eu gostaria, nesta noite de sexta-feira, enquanto escrevo este conto, esta crônica, este poema, este romance esdrúxulo, estas palavras sem pé nem cabeça, só peito, estas palavras que só interessam a mim, estas pobres palavras que alguém um dia vai rotular de qualquer coisa como prosa poética ou como lixo, pra mim tanto faz, porque estas palavras são apenas noturnos, enquanto aguardo, nesta noite em São Petersburgo, em São Francisco, em São Luiz do Paraitinga, em São Luís do Maranhão do São Gullar, do Gullar que me observa agora, ao lado do Machado, do Pessoa, do Oscar Wilde e até do francês, que deve estar sentindo umspleen danado por me ver, e todo esse povo me olha de dentro de um papel-bíblia da Aguilar, todos esses caras comprados em promoções, todos eles valendo um preço tal, setenta reais e noventa centavos, e mesmo sabendo que esse povo também é vendido por aí, que virou mero adorno para minha estante, sim, porque nestes dias de trabalho e trabalho, como achar tempo para poesia e romance, e pior, como achar tempo para escrever poesia ou romance, e pior, como achar coragem para escrever poesia ou romance ou qualquer coisa diante desses olhares eternos, opressores até, é por isso que esta noite, em São Paulo das Almas Perdidas, eu só gostaria mesmo, pensando na volta dele, ele que foi maior que Machado ou Chopin, pensando que ele não deveria trazer a espada, e sim a paz, porém não dá, ele mesmo disse que não, e é isso mesmo que precisa ocorrer, precisamos da espada, do espinho, que corte a carne dessa juventude egoísta, que arranhe a pele deste burguesinho que sou e o faça abrir a janela e sentir o cheiro de mijo e fome dos mendigos, que abra ao meio este burguesinho, eta palavra fora de moda, burguês, tão fora de moda como escrever cartas de amor, como escrever o falso e descabido fluxo de consciência de um burguesinho fora de moda, que se empanturra de pizza com mussarela derretida numa noite de sexta-feira em São Paulo da Miséria, terra dos burguesinhos como eu, dos milionários da rua de cima, dos travecos debaixo do Minhocão, e dos mendigos de todo canto, em cima do viaduto, embaixo do Tietê, grudados na sola de nosso All Star fora de moda, agarrados ao pedaço de pizza que escorre para dentro de nosso estômago, tudo isso tão lugar-comum, tão clichê como falar da fome dos outros enquanto se devora um triângulo de mussarela de búfala, tão clichê como escrever maus fluxos de consciência, fluxos de consciência de um burguesinho sem consciência, porque só sabe ouvir Chopin dentro de um quarto de classe média, enquanto aguardo, já que não posso esperar por um novo mundo possível, tão fora de moda esperar isso, pedir paz, justiça, igualdade e nada fazer, discursos políticos jogados no vazio, tudo tão fora de moda como ouvir um noturno de Chopin e aguardar você chegar e, como toda noite você faz, ah, como eu gostaria de te ouvir chegar de mansinho na cama, me dar um beijo e um boa-noite-meu-bem, e me abraçar um abraço tão apaixonado e tão lúcido que num segundo silenciaria os gritos, os tiros, as sirenes e os roncos de fome, e eu fecharia este caderno de rascunhos porque a partir desse abraço nada mais importa senão lembrar que pelo menos aqui, neste quarto de classe média, ao som de um piano noturno que não é o de Sam, ainda existe o amor, eta palavrinha tão fora de moda que dá até medo de escrever para não gastar, para não acabar, para não chocar.

*eduardosigrist@gmail.com


 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s