Subir os móveis


Um sonoro putaqueopariu para este texto. Não tem aquele velho ditado tibetado de que “a vida se esgota enquanto nos preparamos para viver”? Tá servida na bandeja a fragilidade do ser humano diante da natureza enfurecida. Para ler e refletir.
***


“A decisão mais importante que tive de fazer de domingo para cá foi, sem dúvida, a de subir os móveis.

Contrariando a máxima segunda a qual “ninguém é uma ilha”, vários municípios catarinenses foram vitimados por enchentes, ocasionadas pelas fortes chuvas que sobrevieram à região.

No sábado à noite, durante uma programação regional da igreja, fiquei sabendo da gravidade do problema das enchentes. O presidente da Associação Catarinense dos Adventistas, Pr. Lorival Gomes, informou-nos da situação do município vizinho de Joinville; o Colégio Adventista Central da cidade já fora afetado pelas enchentes e houve perda de recursos. Confesso que, até então, ainda era impossível prever o que me aconteceria. Averiguamos, mais por curiosidade, através da internet, a situação calamitosa de cidades vizinhas, como Brusque, Blumenau, Joinville, etc.

Na manhã seguinte, um de meus amigos, o professor Jean Benassi, que trabalha no mesmo colégio que eu, ligou para minha casa. Ele precisava do telefone do diretor (cuja residência fica em cima da minha), porque seus irmãos estavam desabrigados e ele próprio temia ficar ilhado. Quase em seguida, uma das coordenadoras da escola nos ligou, recomendando que deixássemos nosso veículo em frente à prefeitura. Ela já havia tomada a mesma medida, prevendo que a água do rio entrasse em sua casa.


Ainda incrédulos, eu e minha esposa consultamos o diretor e a dona da casa em que moramos. Dona Terezinha, moradora antiga da cidade, nos garantiu que a água poderia subir ao nível da metade de nosso quintal, sem, contudo, chegar a entrar em nossa casa (que é mais alta do que as demais da rua).

Eu e minha esposa fizemos um “tur”, verificando as ruas próximas a nós que estavam afetadas. Voltamos para casa e logo o pesadelo ganhou contornos realísticos.

O nível da água começou a subir em nossa rua. Ficamos na casa do diretor do Colégio Adventista de Itajaí, Pr. Sonir Brum. Acompanhamos durante boa parte da tarde e noite a cobertura da TV Brasil Esperança, emissora local, sobre os resultados da enchente na cidade.

Vimos lanchas socorrendo idosos em bairros nos quais a água invadiu completamente as residências. Abrigos indicados pela Defesa Civil eram recomendados à população, que ouvia a instrução: “Se a água subir, levante os móveis e saia de casa”.

O apresentador Delísio cobrava a todo instante a prontidão das autoridades – bombeiros, Defesa Civil, Prefeitura –, além de convocar voluntários para socorrer os telespectadores que ligavam dando seus endereços e contando de sua situação. Fomos informados de saques feitos às casas que eram deixadas pelos moradores temerosos. Políticos eram contatos para dar a desculpa rotineira: “Eu não sabia…”

Neste contexto, eu e minha esposa ficamos decidindo o que faríamos com nossos móveis. Se por um lado, tínhamos a garantia de Dona Terezinha de que a água não entraria em nossa casa, acompanhávamos o nível da água subir, chegando mesmo a invadir nosso quintal progressivamente. Não parava de chover desde sábado à noite.

Os carros, por precaução, foram colocados na parte superior do quintal, para evitar possíveis avarias com a subida do nível da água.

A igreja Adventista central de Itajaí tornou-se um posto para atender os desabrigados, sob os cuidados da ADRA. O pastor Paulo Predebom, distrital de São Vicente, o outro distrito da cidade de Itajaí, arrumou um caminhão para fazer mudanças das famílias mais atingidas pela crise.

Acabamos indo dormir. A preocupação nos levou a acordar de hora em hora, durante madrugada, para acompanharmos o avanço do nível da água. Lá pelas 4 da madrugada, percebendo que corríamos o risco de ver nossa sala alagada, chamamos nossos amigos e erguemos os móveis. A geladeira ficou postada sobre as quatro cadeiras da cozinha, enquanto os dois sofás foram apoiados em quatro outras cadeiras emprestadas. Somente depois disto, pudemos dormir em relativa paz.

Pela manhã, o Pr. Sonir e o Emerson, diretor de disciplina do colégio, saíram para ver a situação da escola. O Emerson passara a noite na casa do diretor, e ambos já haviam visitado o colégio várias vezes ao longo do domingo, sem detectar a menor probabilidade de a enchente atingir a instituição. Porém, ao saírem de casa, com a água batendo em suas cinturas, acabaram encontrando uma triste realidade: a área da Educação Infantil, juntamente com os laboratórios (de Ciências e de Informática) e a cozinha do colégio, estavam com mais de um metro de água. Computadores, a geladeira, os materiais das salas – tudo foi perdido, devido à vala próxima que transbordou, trazendo suas águas fétidas para a área mais baixa do colégio.

Próximo das dez da manhã, eu e minha esposa levamos o colchão, roupas, alimentos e materiais de escola para a casa do Pr. Sonir e sua família. As gavetas mais baixas foram postas no estrado da cama. Já estávamos sem energia elétrica.

Passamos o dia recebendo ligações de parentes e amigos, informando e sendo informados sobre a situação dos moradores de Itajaí. Tínhamos alimento abundante, pela Providência divina. Infelizmente, víamos transeuntes vagando com seus apetrechos, enquanto outros deixavam a vizinhança sem muita expectativa de salvar seus pertences.

Acompanhávamos o trânsito de pessoas pela rua, tendo que atravessar a água quase à cintura. Botes salva-vidas, lanchas, caiaques e Jet-sky transitavam por nossa rua, agitando uma marola repugnante. O reflexo da água, sob o sol que abriu, era visto serpenteando pelas paredes das casas, como se a rua toda se tornasse uma imensa piscina marrom. O nível da água em nosso quintal era rigorosamente fiscalizado através das lajotas que levam da garagem a minha porta: contávamos quantos lajotas ainda faltavam para a água chegar à porta de casa.

Somente à tarde, a água invadiu minha casa, através de uma infiltração localizada no pequeno escritório. Como a sala fica em um plano mais alto que o restante dos cômodos, era justamente a sala que ficou incólume ao líquido podre e habitado por baratas. Minha esposa teve de me convencer (e ela pode dizer que não foi fácil) a retirar nossos criados-mudos do quarto e levá-los para a sala enxuta.

Somente a partir de umas 17 horas, começou o recuo da água. A energia elétrica voltou quatro horas depois. Recebemos as primeiras informações: de toda a Santa Catarina, colocada sob estado de emergência pelo governador Fernando Henrique no sábado, Itajaí fora a mais afetada, com cerca de 90% da cidade tomada pela enchente. E os relatos comoventes continuam: agora a pouco homens uniformizados retiraram uma mulher em serviço de parto em um edifício vizinho de onde estamos (minha esposa e a Profª Eude Bahia acompanharam a empreitada, saldada com palmas por populares).
Ainda não sabemos o que nos acontecerá. Só tenho a agradecer a Deus pelos cuidados dispensados a minha família e amigos. Também conto com as orações e apoio material a todos aqueles que perderam tudo naquela que pode ser a mais trágica enchente a afetar o estado catarinense. Oramos para que Deus cuide de vidas que podem se perder sem tempo para conhecê-Lo.”

Fonte: http://questaodeconfianca.blogspot.com/2008/11/chove-chuva-minha-experincia-com-uma.html

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