Shyamalan: Fim dos Tempos ou Fim da Criatividade?


M. Night Shyamalan

Sexta-feira, 14 de junho.

Dia de estréia mundial do novo filme de Shyamalan. M. Night Shyamalan.

O que esperar? Voltemos ao século passado. Flashback!

1999. O indiano da Philadelphia, que já havia feito dois filmes praticamente desapercebidos do grande público, me aparece com esse tal de O Sexto Sentido, do qual você ainda se lembra muito bem e é provavelmente um dos poucos filmes de terror verdadeiramente relevantes da década de noventa. Shy vira nominee, não chega a ganhar mas causa ótimas impressões e arrebata legiões de fãs no mundo todo. Lança um DVD do filme cheio de extras interessantes, ganha status de cult em muito pouco tempo e causa ansiedade ao anunciar Corpo Fechado, lançado com grande alarde no ano seguinte.

O trailer era sensacional, trazia novamente Bruce Willis como protagonista e prometia outro suspense sem precedentes mas… ninguém entendeu nada. Roteiro com cheiro bom mas com sabor de requentado, Shy contou uma história em quadrinhos de um jeito diferente e em tom de homenagem, mas só pegou (?!) quem gosta muito do gênero. Os demais apenas fingiram que gostaram muito do filme apenas para não terem que admitir que Shy filmou algumas boas cenas e tentou variar, mas não conseguiu repetir nem metade do que realizou no filme anterior. E onde estava aquele filme que o trailer prometia?

Huum, hora de voltar para a prancheta. E em 2003 somos apresentados aquele que é provavelmente seu filme mais controverso: Sinais. Mel Gibson, alienígenas, humor, algumas boas cenas de suspense e um final que fez alguns voltarem a sentir que estavam diante de um roteiro diferente, mas fez outros torcerem o nariz e terem a certeza de que o diretor/roteirista era fogo de palha. Não sou tão chato, admito que o filme também não tem o clima de Sexto Sentido – e nem era para ter, já que são de gêneros totalmente diferentes – e não é criativo o suficiente para entrar num top10 qualquer, mas é muito divertido e tem algumas cenas realmente interessantes. Gostei! Voltei a acreditar!

Mas foi só. O seguinte A Vila passou dos limites enganando o cinéfilo nos trailers e no material promocional. Todos pensavam estar diante de um novo filme de suspense ambientado no século XIX, cheio de sustos e emoção, mas fomos apresentados – de novo – a um gênero diferente. Privilegiando quem não lê nada antes de ver o filme, Shy quebrou o clima com um filme arrastado, cheio de metáforas e que discute o significado de “medo”, em vez de criá-lo. Vejam, o filme não é ruim… só não tem nada a ver com o que foi vendido, além de não ter tanta competência quanto os anteriores na arte de surpreender. E convenhamos, a esta altura Shy não tinha mais como enganar ninguém com suas reviravoltas.

Pessoas mortas, fantasmas, família, super-heróis à moda antiga, alienígenas, fé, medo e reviravoltas. Às vésperas de lançar seu sétimo filme, os seguidores de Shyamalan já não estavam tão ansiosos por sua próxima empreitada e nem eram mais tantos assim. Cansado dos velhos temas, Shy não quis nem saber, rompeu com aqueles poucos fãs que ainda esperavam por um novo “Sexto Sentido” e cometeu Dama da Água, uma auto-paródia fantasiosa e cheia de piadinhas de meta-linguagem que irritou profundamente aqueles que timidamente ainda aguardavam uma volta ao gênero que o consagrou. Também não é ruim, mas não é nosso Shyamalan e ele não tinha esse direito. Shy foi esquecido e se passaram mais dois anos.

2008. Chega o trailer de Fim dos Tempos. Quem não reconhece o nome do indiano se inquieta. Quem conhece fica agitado, nervoso, confuso. Shyamalan faz mistério, não mostra o filme para a imprensa. Cria-se um clima que promete sem prometer, ousa sem ousar. Amantes do pop e devoradores de blockbusters são acossados por uma brisa gélida e marcante e sem se perguntar o porquê passam a esperar por mais um suspense violento, bem filmado e com algum twist no roteiro. Esperam um novo Sexto Sentido!! Por quê? Porque estamos secos, drenados, famintos e ansiosos por um filme de suspense criativo e emocionante, com reviravoltas, cenas impressionantes, alguma violência e aquela sensação de puta-que-pariu-o-shyamalan-está-de-volta. Mas eu sabia. Eu sabia que Fim dos Tempos era só Babaloo Banana.

Nessa linha, o Fim dos Tempos é o fim da picada. Não como filme, mas como acontecimento. Mais uma vez o indiano arrebata multidões mundo afora, reaviva fãs que poderiam estar assistindo a estréia igualmente aguardada do novo Hulk para conferirem mais essa pegadinha do malandro gringo-indiano. O Binômio ciência-fé está de volta, mas com as piores escolhas que o diretor poderia fazer.

Um tal de Elliot Moore (Mark Wahlberg, no pior papel de sua carreira) é um professor de Ciências em crise no casamento com Alma (a inacreditavelmente ruim Zooey Deschanel). Os dois juntos parecem testar a paciência do cinéfilo com o desfile de clichês do que os blockbusters tem de pior, em diálogos tão ingênuos, bobos e inacreditavelmente irreais que o cara que pagou quinze reais para aguentar aquilo não acredita no que está vendo. Os dois, num Impacto Profundo sem efeitos, num Volcano sem Tommy Lee, num Armagedom sem Liv Tyler, num Independence Day sem alienígenas (e sem a Casa Branca) quebram a barreira da canastrisse.

Felizmente, há o roteiro. Uma toxina, aparentemente natural, é disseminada com o vento e causa comportamentos estranhos nos seres-humanos. O que se sabe é que as pessoas ficam confusas, perdem a fala, ficam paralisadas e depois se suicidam. Na rua, no parque, em qualquer lugar e de uma hora para outra. Basta uma lufada de vento e caput. Engenhoso, não? Dez anos atrás eu diria que a idéia é genial e que só um diretor muito confiante e criativo poderia acreditar que sustentaria um filme em que o vilão é o vento.

Certo? Errado. Discursos politicamente corretos, causa ambiental e mais alguns sub-teminhas como casamento, família, amor, cumplicidade implodem a obra. Tudo batido e tão explícito que até as cheerleaders e os caras do time de rugby vão sacar. E se não sacarem, um dos protagonistas vai explicar em alto e bom som, seja num daqueles diálogos inacreditáveis, seja num vergonhosa voz em off no fim do filme. E ainda tem as piadas. Shyamalan conseguiu se repetir até invocando uma velha piada de Sinais. Essa mesmo, você se lembra.

Se o roteiro em parte ajuda, infelizmente nosso controvertido diretor erra a mão naquilo que sabia fazer de melhor. Não há sinal de novidade: a exposição dos personagens e dos temas é absolutamente fácil, sem graça, óbvia. As cenas de impacto não são críveis, pelo contrário, causam estranheza até para as crianças. Os atores vacilam, os clichês saltam aos olhos, até a famosa cena das pessoas em volta da tv assistindo ao telejornal com cara de apreensivas está lá. E é pior: a cena se repete em volta do parente desesperado ao celular, do grupinho guiado pelo soldado assustado fugindo do inimigo, dos personagens que tem cara de que vão morrer assim que aparecem, das pessoas apreensivas ouvindo rádio com cara de “já era”. E o final é burocrático, previsível, óbvio e… você vai ver. Vai sim, porque apesar de tudo que eu falei você quer acreditar.

Entenda o que quero dizer. O filme é até superior a média, se enquadrado no gênero. Há explicações mil para tudo que eu disse, inclusive aquele papinho de que tudo parece um sonho ruim – inclusive as atuações do par romântico – para parecer que a humanidade caminha para o fim com cara de zumbi. Acredito até que o diretor pode até ter tido essa idéia em alguns momentos, mas depois que percebeu ter contratado as pessoas erradas preferiu usar isso como desculpa. Ficou falso, manja?

Vamos combinar, o filme tem seus momentos e alguns são realmente bons. Compre o ingresso e se divirta ao menos com os sustos. Estes estão lá com o claro intuito de pagar o ingresso e injetar adrenalina, provavelmente com objetivo de apagar a péssima execução de uma idéia tão interessante. Mais ou menos como a toxina que ataca a humanidade no filme, Fim dos Tempos é o Fim da Criatividade de Shyamalan. Decretado, morto e enterrado.

Ass. Dr. Malcom Crowe

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9 comentários sobre “Shyamalan: Fim dos Tempos ou Fim da Criatividade?

  1. Eu adorei esse filme! Aliás, eu sou suspeita pra falar pq eu adoro simplesmente TUDO que o Shyamalan faz, cê sabe né Rá!! rsrsrsrs

    **ATENÇÂO DAQUI EM DIANTE PODE CONTER SPOILERS**
    Apesar das canastrices e dos clichês (que eu concordo com o Raul que houveram e muito!), eu gostei de ver a visão do Shyamalan sobre a natureza, o planeta ou o universo, whatever, prestando contas com os humanos e vindo cobrar pelos estragos que temos causado durante todos esses anos. Aliás, eu sinceramente, acho que isso já vem acontecendo há tempos, mas de formas diferentes: furacões, tufões, tsunamis (que dizimam milhares de pessoas de uma vez), os terremotos no Brasil(!!)… uma toxina seria apenas mais uma forma de consumar esse acontecimento. Maneira mórbida – quem viu o filme saberá do que estou falando – mas não deixa de ser uma maneira…
    E os efeitos e as idéias das mortes são muuuito da hora!

    A-DO-REI!!! rsrsr

  2. Acho incrível como todo mundo quer que o SHYAMALAN faça um novo Sexto Sentido e TODOS os outros filmes dele passam a ser comparados com aquele.

    Gostei MUITO MESMO de TODOS os filmes dele. Inclusive o Fim dos Tempos. Não vou ao cinema esperando ver outro Sexto Sentido. Aquela obra é única e deve continuar como tal. Só se tem uma idéia daquelas uma vez.

    Nunca mais Jamers Cameron vai fazer outro filme que arrecade tanto dinheiro quanto Titanica. Nem o Martin Scorsese vai fazer outro Poderoso Chefão. Nem o Peter Jackson fará outro Senhor dos Anéis.

    SHYAMALAN é um dos melhores diretores/roteristas da atualidade e continuarei assistindo a todo e cada filme que ele fizer.

    Nota 9 para o filme. Faltou só melhorar o final. Eu teria feito o casal começar a andar pra trás e a falar palavras desconexas depois de um beijo. Morte geral e o fim da raça humana sobre a Terra. Não teria feito o final feliz nos EUA e o ‘evento’ acontecendo novamente na França…

  3. Hey Tito! Teu final subiria alguns pontos no filme, sem sombra de dúvida. Mas veja, eu QUERO outro Sexto Sentido e enquanto ele não fizer eu vou reclamar, apesar de saber que não vai acontecer…

    Coisa de cinéfilo mimado mesmo.

    Fui adolescente nos anos 90, tá certo? Estou mal acostumado com milagres pop como Os Bons Companheiros, O Pagamento Final, Donnie Brasco, Os Imperdoáveis, Cova Rasa, Trainspotting, Alien, Instinto, Boogie Nights, Kids, Crash, Doors, Seven, Corvo, Pulp Fiction e – por que não – O que é Isso Companheiro?! Quero acreditar que essa gente toda pode operar de novo. Ainda que não possa. 🙂

    Abraços!

  4. Agora da pra comentar, apos ter visto filme (e ter preterido o mesmo a favor do Hulk, que devo postar algo por aqui em breve): Discordo quase de todo o post. Nao acho os filme do Shamamamamamalan ruim assim, exceto “A vila” que é ruim memso 🙂

    Agora, “Fim dos Tempos” é uma das piores coisas que ja vi na vida e espero mesmo de nunca mais ver nada proximo. Acho que se aproxima muito ao filme “o sotao” em termos de coisas indigestas a serem vistas na vida, para se arrepender no dia do Juizo final 🙂

    Nem vou falar sobre os fraquissimos dialogos: Pensa so na “moral do filme”, o que ele quer deixar no fime, como novidade. Faz de conta agora que o filme é otimo. Nao parece que o filme chegou uns 15/20 anos atrasado no tema e no quesito “aviso” ?? Esse filme seria otimo como uma previa a ECO92.

    • Pow, nem tinha visto isso aqui. Bruw, eu não acho os filmes tão ruins, pelo contrário, gosto bastante de 6o e Sinais. E acho que ele deveria seguir nessa linha, manipulador, pop assumido. Essa linha metáfora/chatisse é só pra quem sabe. rs

      E tá devendo uns posts novos hein…

  5. ‘Um pouco de tudo’ sobre o filme… menos as paranóias dos comentários ‘frases-feitas’. O revi agora a pouco na tv paga, e no conjunto, gostei… realmente provocador. Nota 9. Como diretor é ótimo na técnica e no insigth do instante coletivo. Embora seu roteiro seja mais cínico que o irônico das obras de seus contemporâneos (Spilbergs e ‘caras pálidas’), visto seu péssimo gosto sugestivo (subliminar) de momentos equacionais tipo, a idéia do isolamento para se salvar (um paradoxo espiritual) ou, a fuga do vento (um paradoxo da salvaguarda nas montanhas) – e a nítida propaganda eugenista (pro elitismo controlador), dada apenas por supor a disseminação humana pela escatologia ambiental e até o desarmamento embutido. Merda pura! Embora o final seja aberto (seu maior trunfo, entre outros detalhes), Shyamalan, consciente ou não – parece se render, no ‘frigir dos ovos’, ao antigo pragmatismo do controle psico-social deste sociedade mundial, quando age de boa ferramenta na condução das emoções coletivas. Em, o Sexto-sentido, por exemplo, pareceu-me querer driblar essa gentalha toda que agora, prece-lhe irmã, desde o início. Bom se salvar, quem ainda tem olhos pra ver!!!

    • Hehehe… olha aí o filme ainda rendendo bons comentários… pensei que era só eu que continuava acreditando. Não comentei Demônio, né? Farei assim que possível. Valeu pela visita, Charles.

      Só um comentário: Shy e a condução das emoções coletivas? Como ninguém. Para o bem e para o mau. Agora, sinceramente, se é pra sair tão chato, eu gostava mais do Spilberg e os “caras pálidas”, só pra aproveitar sua citação. rs

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