Teatrix e ” A Noite dos Assassinos “


Sabadão chuvoso, quase todos os filmes interessantes em cartaz já devidamente assistidos, sem saco para baladas e sem nenhum show decente rolando na cidade. A missão era encontrar uma peça de teatro boa e barata, de preferência em algum canto novo de São Paulo, daqueles que você nunca vai ouvir falar se não procurar por si mesmo. Missão cumprida, ainda que diferente do planejado…

Teatro Chick, Guia SP, Sampa Online, Sesc-SP, tudo óbvio, tudo igual. Foi mesmo no Google que nos deparamos com uma chamada no Guia da Semana sobre uma peça cubana escrita em 1959, proibida nos anos 60 por ser considerada anti-revolucionária. “A Noite dos Assassinos”, de José Triana, é uma metáfora dramática do clima vivido na década de 60 naquele país, focada no conflito de gerações entre pais e filhos, especificamente em relação aos valores educacionais daqueles e a revolta destes. Em resumo, três irmãos que encenam matar seus pais, questionando a forma de encararem a vida, o modo como seus pais lidaram com sua educação e a clássica condenação do adolescente sobre seus genitores que “o fizeram ser como ele é”. Prometia texto ácido, clima macabro, crítica voraz. Não rolou.

Os atores Flávio Barollo (Bebo), Ligia Paula Machado (Cuca) e Rudson Mazzorana (Lalo) se esforçam bastante, mostram talento nos 14 personagens que interpretam, mas não o clima desejado não surge. A fumacinha quase noir, a música quase enervante, o texto quase impressionante… tornam a peça quase boa. Talvez um capricho maior aqui e ali fariam funcionar melhor um texto tão difícil quanto esse para os dias de hoje. Entendido como plano de revolta numa época marcada pela repressão, o texto hoje em dia funciona razoavelmente, mas fica datado demais porque exprime revolta de menos. O fato de os garotos planejarem a morte dos pais é mais impactante do que apenas encená-la, ainda mais em dias de Suzane Richtoffen em que a máxima da vida é simplesmente eliminar obstáculos, ainda que estes sejam obstáculos humanos. A Noite dos Assassinos parece brincadeira de criança perto da realidade e não impressiona ninguém apesar de ter três ótimos atores dando tudo de si em sessenta minutos de diálogos rápidos e incisivos. Talvez uma direção mais criativa de Fábio Cadô desse ares mais joviais e atuais para a encenação, mas como está apenas paga os vinte reais do ingresso.

A noite valeu pela bela surpresa que é o Teatrix. Bar, bistrô, restaurante e teatro no mesmo lugar, a casa é inspirada nos grandes teatros antigos, com cortinas vermelhas e arquitetura imponente. Conta com uma obra do modernista John Graz e belos painéis inspirados em peças antigas. No cardápio, pastéis com recheios classudos, massas, omeletes, ovos mexidos, carnes e sobremesas requintadas, tudo a preço justo pelo ambiente que oferece, ainda mais tendo-se a oportunidade de subir as escadas e assistir a uma peça num mini-teatro para cerca de 50 pessoas. É apertado e as cadeiras não são as mais confortáveis do mundo, mas a idéia é sensacional. Serramalte e Original por 6 mangos, longneck de Skol por 4 pila, petit-gateau com morangos por 9 contos. Rola estacionar na rua (a Al. Peixoto Gomide na altura do número 1000 é bem tranqüila nos fins de semana à noite) e também tem serviço de manobrista. Vai lá!

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2 comentários sobre “Teatrix e ” A Noite dos Assassinos “

  1. Olá. Quem escreve é o ator Rudson Mazzorana (Lalo). Gostaria de agradecer a crítica e, desde já, informar que todo comentário é válido e serve para que possamos crescer como profissionais. Obrigado por ter ido nos prestigiar. Fique com Deus.

    • Boa tarde!
      Chamo-me Isaías, tenho 17 anos, e sou aluno do Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira, Funchal, Portugal.
      Estou no último ano do Curso Profissional das Artes do Espetáculo – Interpretação (Teatro). E como tal, eu e os meus colegas, temos de fazer um último trabalho como PAP (Prova de Aptidão Profissional), e o nosso professor orientador indicou-nos o texto “Noite de Assassinos”, de José Triana.
      Eu e os meus colegas estamos desesperados à procura do texto, online, livrarias e bibliotecas, mas não conseguimos encontrá-lo.
      Será que nos podia ajudar, enviando-nos em anexo o texto para o e-mail?
      Ficaríamos muito gratos, obrigado!
      Atenciosamente Isaías.
      P.S. Deixo o meu e-mail: isaias.viveiros.7@gmail.com

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