… sweet EMOTION.


Reinaldo Marques/Terra 

You talk about things and nobody cares…

 Sabe aquele click que você tem num determinado momento da sua vida, que te faz mudar a forma de encarar as coisas, de fazer as coisas… de sentir as coisas? Sabe aquela lição de vida que você leva de repente, feito tapa na cara, te marcando como uma cicatriz, te acertando rápido e certeiro feito um balaço? 

 É nesse momento que você passa a respeitar quatro ou cinco caras não pelo que eles fazem há trinta anos, mas pela maneira como eles fazem. É nesse momento que você entende que encontrou aquilo que procurou durante toda a sua adolescência, às vezes em garrafas de vinho, às vezes nos amassos que você deu naquela menina que olhava há meses, às vezes nas atitudes impulsivas e totalmente irresponsáveis que tomou sem saber exatamente o motivo. Outra forma de ver o mundo. Com paixão.

 Neste momento sinto-me seguro o suficiente para contar, aqui sentado em frente ao monitor, engolindo um copo imenso de café  –  que não sei precisar se é o terceiro ou o quarto – franzindo a testa, forçando a visão, tentando acomodar as pernas na mesa a cogitando tomar mais um comprimido. Falo de toda a emoção que arrepiou cada fio de cabelo fazendo valer cada minuto de sol, chuva, sede e fome que se passa para assistir um show desses, da maneira como assisti. Senão vejamos:

(…) You’re wearing other things that nobody wears…

 Chegando ao estádio do meu time do coração, a organização era a de sempre: praticamente nula. Sinalização de entrada absolutamente deficiente, orientadores desorientados, trânsito caótico, confusão, correria, same old shit. Mas o gostinho é era bem diferente.  

 Feito culto ecumênico, via-se glams, emos, casais, tiozões, adolescentes de todas as raças, tribos e loucuras. O figurino ia do clássico jeans/camiseta preta ao hippie setentista, passando pelo glam dos anos oitenta e até por um ou outro metaleiro assumindo timidamente seu gosto pelo bom e velho hard-rock. 

 Fez sol, garoou, ventou, choveu, tudo pareceu contribuir para o clima de ansiedade e inquietação que os fãs sabiam originar-se do fato de aquela ser provavelmente a última – e na maioria dos casos, a única – vez em que se viveria o magic moment.

You’re calling my name but you gotta make clear

 Totalmente quadjuvantes na festa, os caras do Velvet Revolver gozavam da reputação passada de seus membros que despertou um interesse especial nos fãs do Aero. Praticamente cem porcento dos fãs do Aerosmith também curtiram Guns n´ Roses nos anos noventa e boa parte deles ainda ouviu bastante Stone Temple Pilots quando o movimento grunge correu o mundo. O fato de termos metade de cada banda subindo ao palco pouco tempo antes do grande momento era tão instigante quanto foi decepcionante.

 Seja pela total e cristalina falta de entrosamento do vocalista com o resto de sua banda, seja pela enervante atmosfera de ansiedade que asssolava a todos pela entrada ao palco da atração principal, o fato é que o show começou apenas às 22:50h quando o Aerosmith surgiu por detrás das cortinas pretas.

 Steven Tyler, Joe Perry, Brad Whitford, Tom Hamilton e Joey Krammer fizeram uma passagem de som de cerca de meio minuto como se acariciassem de leve seus instrumentos antes de maltratá-los com a classe que lhes é peculiar.

 Love in an Elevator, hit de médio impacto, normalmente usado pela banda para aquecer o público e ajeitar o som abriu o show. Pois é, depois de trinta anos de estrada, a banda não precisa mais ensaiar, construir setlists e trabalhar demorados acertos de som. Tudo é feito ali mesmo, minutos antes do espetáculo, quando não em pleno show. Toys in the Attic e Dude Looks Like a Lady ainda foram executadas em meio a acertos feitos pela banda ali mesmo, por meio de sinais que ora sobrepunham a guitarra de Perry à voz de Tyler e vice-versa. Até aí, no gargalo da pista, ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo. Todos gritavam histéricos, percebendo a deficiência do som, mas louvando a banda que ouviam há séculos, ainda que esses séculos fossem oivo ou nove anos, o que representava meia existência para quase todos ali reunidos.

 Adolescentes insanas, garotos petrificados, senhores sorridentes, casais abraçados e grupos empolgados gritavam, cantavam e pulavam sem que se ouvisse nada a não ser um ruído descontrolado num mix de vozes roucas e desafinadas, pontuados por duas guitarras ainda tímidas, baixo e bateria presentes e a voz apagada de Steven Tyler, que mais do que tranqüilo fez seu trabalho de consertar os roadies e sua parafernália com algumas poucas frases curtas e sinais nem um pouco improvisados. A turba ia e vinha, numa marola forte e descontrolada, ora vinda do fundo da pista ora em revide do povo da grade. Os mais fracos sucumbiram e cada vez que alguém fugia da pista, outro dois tomavam seu lugar numa movimentação que só quem tem anos de bate-e-cabeça compreende e aprende a gostar.

 Alusões a bandeira do Brasil, caricaturas e efeitos especiais mesclados a videos com imagens de toda a carreira da banda, numa quase farewell tour foram criando um clima frenético de momento único, de marco na vida de muitos que ali dançavam, ainda que vários pouco tenham vivido perto do que ainda virão a fazer neste mundo. Não importa, era a primeira grande história que viviam e que poderiam guardar para contar aos netos. 

(…) I can’t say baby where I’ll be in a year!

 De surpresa, os primeiros acordes de Falling in Love, incendiaram todo o Estádio do Morumbi. A segunda faixa do último grande álbum da banda não era tocada ao vivo há muito tempo e não era esperada por ninguém. Dançante, feita para fazer pular, com uma letra apaixonada e descompromissada, causou um transe hipnótico na galera e transformou a apresentação num show da platéia com a banda, numa interação que pouquíssimas vezes vi na vida. Eram cinco caras, cinco instrumentos e vinte mil pessoas numa catarse acompanhada de longe e com emoção por mais quarenta mil pessoas que vieram de perto e de longe para postar-se na arquibancada e assistir a multidão delirar a poucos metros de seus ídolos.

 Um sentimento bom, de redenção e limpeza tomou conta de todos que se jogaram na emoção de pular junto nos velhos clássicos Toys, Dude Looks Like a Lady, Rag Doll e Livin´on The Edge, chorar e se abraçar em baladas que falam de sentimentos que todos tivemos milhares de vezes a vida toda, como a vibrante Cryin´, a triste What it Takes, a trágica Janie´s Got a Gun, a linda Seasons of Wither e a inspiradíssima Dream On. Em especial nesta última vivi provavelmente uma das mais intensas sensações de minha vida e que muito dificilmente será batida: fechei os olhos e senti a canção, lembrando da primeira vez que a ouvi, da primeira vez que li sua letra, da primeira vez em que pensei na emoção e na inspiração que levaram Tyler a escrevê-la. Revivi imagens de um passado distante, das coisas que fiz ouvindo a música, de cenas daquela época tão boa, despreocupada e feliz da adolescência. Naquela marola de sensações, senti o sangue ferver e gritei cada palavra da letra, mais alto que consegui até fritar cada gota de água em meu corpo. Sweet Emotion simplesmente dobrou essa sensação.

 No meio de tantos clássicos, a batidíssima Don´t Wanna Miss a Thing e a chatinha Jaded soaram deslocadas para fãs antigos como eu, mas presentearam os fãs mais novos, que provavelmente começaram a ouvir a banda por essas músicas, descobrindo só depois o verdadeiro mignon. Energias recuperadas, corpos re-hidratados por copos d´água disputados a tapa  na multidão, muita coisa ainda estava por vir.

 A esta altura, o show que já podia ser considerado memorável, supreendeu ainda mais com uma jam dos blues setentistas Baby Please Don´t Go  e Stop Messin´ Round, esta última cantada e tocada por um Joe Perry visivelmente inspirado. A banda toda interagiu de forma mágica e comovente, demonstrando a cada uma das sessenta mil almas que acompanhavam a pequena “ação entre amigos” que aqueles cinco caras no palco são na verdade uma família. Fiquei bobo assistindo tocarem um blues revestido com o estilão do Aerosmith, cheio de ginga e empolgação, imaginando o que passava pela mente dos caras enquanto faziam exatamente o que mais gostam e melhor sabem fazer há mais de trinta anos, com a mesma emoção e devoção do início.

 Todos satisfeitíssimos, som no último volume, banda empolgada e público em êxtase, todos se regozijaram numa Draw the Line longa e deliciosa, com direito a um mosh de Perry na batera de Krammer, que baqueteou por uma eternidade a guitarra deitada para loucura dos presentes. Depois, um bis curto e incisivo com o maior clássico da banda, numa versão já um pouco mais lenta e cadenciada: surgiu uma Walk This Way com cara de adeus, misturada a acordes de uma saudosa Hot Pants, do recém-finado James Brown.

 Um Steven Tyler impecável, com uma presença de palco impressionante, agradeceu a energia dos presentes e sumiu da vista do público com a grandeza que lhe é peculiar, ciente de ter feito o espetáculo das vidas de milhares de pessoas. Catarse assim, dificilmente será batida.

love
toys
dude
falling
seasons
cryin´
ragdoll
livin´
what it takes
janie´s
dream on
emotion
i dont´want
baby please don´t go
stop messin´ round
draw the line
walk this way

… mais ou menos nessa ordem.

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Um comentário sobre “… sweet EMOTION.

  1. O show foi mágico como deveria ser pra quem adora uma banda desde adolescente e sempre achou muito distante o dia em que a veria ao vivo. A todo momento que eu olhava para o palco e ficava pensando em como eu sempre quis estar ali naquele momento com o Tyler na minha frente pulando que nem um macaco em seus trejeitos tão conhecidos; exatamente como eu sempre via nos vídeos. E, naquele momento, eu fazia parte do circo!! Ficava perguntando pra mim mesmo se eles, ali em cima do palco, tinham noção de estarem realizando um sonho de muita gente e do que significava isso pra nós. Qualquer olhadela em nossa direção, qualquer gesto mais empolgado era demais! E as músicas, cuja qualidade dispensam comentários, soam como as melhores do mundo nesse momento, independentemente dos ajustes do som: eram eles que estavam ali tocando. Comentário de um fã no pós-show é sempre tendencioso e longe do que ‘os outros olhos’ viram. Mas pra quê a razão numa hora dessas? Aí é que está a graça.
    Ótimo texto Raul!!

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