Em março desse ano, Obama fez um discurso que arrancou elogios mundo afora. Criticava esquerdistas radicais que se mostravam contra cotas raciais, bradava que o cidadão de hoje não podia ser culpado por erros de gerações passadas e brincava com as palavras, lembrando que é criticado por “negro demais” e ao mesmo tempo por ser “negro de menos”. Prometeu, por fim, enfrentar a questão racial sem alienação.
Obama assume a presidência do maior país do mundo em 20 de janeiro de 2009. Teve uma vitória foi esmagadora. Colocou os democratas no comando supremo dos EUA. E ainda puxou votos que deram o controle dos democratas no Congresso. Pela primeira vez em 232 anos de história, a América tem um presidente cosmopolita, que promete restaurar a imagem dos EUA perante o mundo.
Todos só falam em Obama, todos estão curiosos sobre o futuro da maior nação do mundo, comandada por um senador inexperiente, porém cheio de idéias e com toda a simbologia por trás de sua cor. Até Daniel Craig chegou a afirmar que Obama abriu uma chance para existir um 007 negro nos cinemas. É evidente que tal nível de exposição corre o risco de banalizar o assunto, mas é absolutamente clara que esta é a oportunidade de ouro para a humanidade se dar conta de uma das maiores bobagens de que já se ocupou.
Obama reacende a discussão racial num momento ímpar de difusão cultural. A informação está mais disponível do que nunca para quem quiser ler, entender e aprender. E é tudo mais fácil do que se imagina.
Tomemos o livro“Humanidade Sem Raças?” , assinado pelo bioquímico Sérgio Pena, que trata da questão com uma simplicidade assustadora. Pena advoga simplesmente que “tratar um indivíduo com base na cor da sua pele ou na sua aparência física é claramente errado, pois alicerça toda a relação em algo que é moralmente irrelevante com respeito ao caráter ou ações daquela pessoa”. E mesmo é simples assim.
Não é difícil notar que a dominação branca, da escravização ao apartheid, é uma questão meramente cultural, ou seja, pode ser absolutamente desinventada e sair de moda. Basta acreditar na genética molecular moderna, que atesta a inexistência de qualquer significado biológico para diferenciação de raças. O autor acredita e convence por A+B que cada um de nós tem uma individualidade genômica absoluta, que interage com o ambiente para moldar sua exclusiva trajetória de vida. O livro é de leitura fácil, fluída, desembaraçada.
Autores clássicos internacionais já o fizeram antes, pormenorizadamente, como Stephen Jay Gould. Titular de zoologia em Harvard, Gould é reconhecidamente o mais lido e conhecido divulgador científico da sua geração e uma de suas obras mais interessantes – A Falsa Medida do Homem – é leitura obrigatória para qualquer estudioso do assunto e um ensaio sensacional sobre o racismo científico. O livro é exigente, eis que se presta a um ofício desafiador: denunciar diversas incoerências lógicas de teorias científicas clássicas (algumas das quais ressucitadas de tempos em tempos por oportunistas) e o uso indevido, apesar de por vezes não intencional, dos dados colhidos em pesquisas científicas diversas. Alguns dos deslizes apontados na obra são até hoje freqüentemente cometidos. A conclusão é aterradora.
O assunto é o determinismo biológico (mais aqui), descobrado dentre outros temas em craniometria e quociente de inteligência (o famoso teste de “QI”), muito usados para “ratificar” a superioridade do homem branco ocidental sobre o negro em geral. Gould demonstra como as pesquisas são manipuladas, dolosa ou culposamente, de forma que as classes detentoras do poder pudessem convencer a sociedade de que o fazem porque são superiores às demais, respaldando-se na ciência. Mas o autor não apenas enumera, pelo contrário, argumenta com precisão e segurança, discutindo com classe sobre uma série de assuntos interessantíssimos, que vão da poligenia a antropologia criminal.
O tema é ricamente abordado, com com diversas citações dos cientistas estudados, ilustrações detalhadas, pontos de vista curiosos e lições pontuadas por fatos históricos de pouco conhecimento da maioria das pessoas. Poucos já ouviram falar da esterilização de pessoas consideradas inferiores, realizadas por países como Estados Unidos, Alemanha, Turquia, União Soviética e Dinamarca. Um número ainda menor tem ciência de que muitas dessas atividades ocorreram apenas cerca de meio século atrás. Até menos.
O conhecimento é a chave evolução. Talvez Obama seja mesmo a “mudança na qual podemos acreditar” e possa impulsionar, ainda que não profissionalmente, algum crescimento intelectual das massas excluídas das grandes verdades. Não faz mal sonharmos com uma sociedade mais pluralista, justa e racional, então comemoremos e aproveitemos a onda enquanto ela não morre na praia.
* Nota: “Humanidade Sem Raças?” é publicado pela Publifolha e está a venda na internet. “A Falsa Medida do Homem” tem versão traduzida para o português pela Martins Fontes e é facilmente encontrado nas livrarias brasileiras no momento em que este post é realizado. E sim, podem pedir que eu empresto o meu!